quinta-feira, 12 de maio de 2016

SUSPENSÃO DE OBRAS DA PETROBRAS EM MG E MS TRAZ DESALENTO

Até dois anos atrás, a cidade de Três Lagoas era o endereço certo para ganhar dinheiro. Donos de restaurantes, hotéis, lavanderias, de pequenas empreiteiras, de mecânicas e de praticamente todo tipo de negócio viam sua clientela crescer a cada mês. O valor dos aluguéis estava nas alturas e algumas famílias chegaram a deixar suas casas para alugá-las para os visitantes que estavam enriquecendo a cidade. O boom da economia tinha um nome: Petrobras. A empresa estava em vias de inaugurar uma grande fábrica de fertilizantes, a Unidade 3 de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3), e as obras viraram o motor da cidade.
Uma onda de otimismo semelhante chegou na mesma época à Uberaba, no oeste de Minas. A Petrobras começava as obras de um fábrica do mesmo tipo, a UFN5. "O clima criado aqui foi de esperança. O Sebrae treinou várias empresas para serem fornecedoras do novo empreendimento. Muita gente de outras cidades se mudou para cá por causa de emprego e oportunidade", diz o prefeito, Paulo Piau (PMDB).
Mas então, tudo mudou. Em Três Lagoas, a Petrobras rescindiu, no fim de 2014, o contrato com as duas construtoras responsáveis pela obra. Segundo a estatal, mais de 80% do projeto estava pronto. Em Uberaba, a paralisação ocorreu um pouco depois, com as obras ainda numa fase inicial. Desde então, os projetos viraram canteiros de obra fantasmas com alguns funcionários tentando impedir uma degradação acelerada de estruturas, máquinas e equipamentos.
Sem caixa e com um plano de desinvestimento em curso, a Petrobras não sabe ainda o que fazer com o que já foi investido em Três Lagoas e em Uberaba. Na primeira, teriam sido cerca de R$ 3 bilhões; na segunda, cerca de R$ 1 bilhão.
"A companhia vem buscando outras estruturas de negócios que viabilizem a finalização desta obra", disse a Petrobras ao Valor em relação à unidade de Três Lagoas. "Sobre a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados-V (UFN5), em Uberaba (MG), a Petrobras esclarece que avalia eventuais oportunidades para retomar uma nova concepção para o projeto."
As duas unidades já teriam despertado interesse de grupos estrangeiros. Pessoas que acompanham o desenrolar do caso no Mato Grosso do Sul e em Minas disseram ao Valor que a Sinopec Petroleum, da China, tem interesse em discutir algum acordo sobre as duas. Um eventual consórcio entre TransGas, dos EUA, e o grupo alemão ThyssenKrupp também teria manifestado interesse em avaliar o de Três Lagoas.
A Thyssenkrupp afirmou que "não há nenhuma negociação em andamento relativa à aquisição de operações de fertilizantes da Petrobras". Não foi encontrado porta-voz da Sinopec no Brasil. E a TransGas não retornou contato.
Uma solução alternativa para Três Lagoas poderia também envolver a Bolívia. "Recentemente, houve um documento assinado pelos dois países que fala em sinergias entre a UFN3 e uma UFN boliviana", diz o secretário de Desenvolvimento Econômico do Mato Grosso do Sul, Jaime Verruck.
Ao menos quatro grupos são citados por interlocutores da Petrobras: o japonês Mitsui, a própria Sinopec, uma empresa do Paquistão (que teria demonstrado interesse) e uma saudita. A Mitsui disse que "não comenta especulações de mercado".
Produzir fertilizantes nitrogenados no Brasil é um negócio com potencial de demanda garantida. Nos últimos três anos, o país consumiu a média de 3,6 milhões de toneladas de nitrogênio ao ano, segundo Reginaldo Minaré, consultor da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O país depende fortemente da importação. Em média, 78% do consumo nacional é importado e 22%, produzido aqui, diz ele.
"Apesar de possuir as condições essenciais de clima, terra arável e água para o cultivo, os solos brasileiros são pobre em nutrientes. Assim, os macronutrientes nitrogênio; fósforo e potássio, são fundamentais para a agricultura", diz Minaré. Mas, acrescenta, o Brasil ainda carece de políticas que tornem mais competitivas a produção nacional.
A Petrobras já tem três fábricas de fertilizantes nitrogenados (Camaçari, BA, Laranjeiras, SE, e Araucária, PR). São fábricas que começaram a operar nos anos 70 e 80. As unidades de Três Lagoas e Uberaba dariam um novo e mais moderno fôlego à produção brasileira.
Estatal busca grupos estrangeiros, entre eles da China, Alemanha e EUA, para concluir os dois empreendimentos
Em maio de 2014, a presidente Dilma Rousseff foi até Uberaba e participou do lançamento da pedra fundamental da UFN5. Num palco armado sob uma grande tenda branca no terreno onde começavam as obras, Dilma fez um discurso otimista. "Quanto mais a nossa agricultura tiver insumos de qualidade produzidos com nossas riquezas, mais riqueza vamos gerar. Daí a importância dessa fábrica de nitrogenados, a importância da gente olhar para área de fertilizante", disse Dilma.
Uberaba teria como abastecer facilmente áreas rurais em Minas, São Paulo e Goiás. Três Lagoas abasteceria Mato Grosso do Sul e o polo do agronegócio brasileiro, Mato Grosso; além de Goiás, parte de São Paulo e Paraná.
Nos meses seguintes à visita de Dilma, as obras avançaram em Uberaba. A construtora Toyo Setal, encarregada pelo projeto, fez as fundações, alocou equipamentos, segundo informação da prefeitura. A empresa não quis fazer comentários sobre o assunto.
A estimativa era que a UFN5 ficasse pronta em 2016 e entrasse em operação em 2017 tendo capacidade de produzir 519 mil toneladas de amônia por ano. O investimento previsto era de R$ 1,95 bilhão. A planta deveria gerar 3 mil empregos diretos.
"Eu costumava dizer que essa unidade seria o pré-sal de Uberaba", lembra Nagib Facury, presidente seção da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) no Vale do Rio Grande.
Em Três Lagoas - que fica bem na divisa entre Mato Grosso do Sul e São Paulo - a construção começou no segundo semestre de 2011 e a previsão era que em 2014 a fábrica estivesse em atividade. Com investimentos previstos de R$ 3,1 bilhões, a unidade teria capacidade de produzir 1,2 milhão de toneladas de ureia e 70 mil de toneladas de amônia.
Com 108 mil habitantes, as obras da UFN 3 atraíram, no ápice, cerca de 10 mil pessoas. Hoje, segundo relatos de petroleiros e de pessoas que estiveram recentemente na obra, seriam cerca de 30 funcionários encarregados de fiscalização e manutenção.
As obras eram tocadas por um consórcio das construtoras Galvão Engenharia e a chinesa Sinopec - a mesma que agora teria apetite para adquirir as duas usinas inconclusas. O consórcio, por sua vez, contratava fornecedores locais de produtos e serviços.
As dificuldades começaram a surgir quando as empreiteiras passaram a dizer na cidade que a Petrobras estava atrasando seus pagamentos e por isso teriam de atrasar também os dos fornecedores. Então, em meados de dezembro, a Petrobras rescindiu o contrato. A empresa alegou "descumprimento do contrato por parte do consórcio". As construtoras rebateram e o caso foi para a Justiça e ainda está tramitando em tribunais do Rio. Naquele momento, a Operação Lava-Jato já apertava o cerco às maiores empreiteiras do país e a Galvão era um dos alvos das investigações.
Para Três Lagoas, foi um susto. "A gente ligava para o consórcio e lá eles diziam que a Petrobras não estava pagando. Na Petrobras, diziam que a dívida não era deles", lembra Sayuri Baez, de 44 anos, foi contratada logo no início da obra para fazer placas de sinalização, mas que depois investiu para construir alojamentos para abrigar funcionárias das obras. "Para mim, era um oportunidade atender a um empreendimento desse tamanho e no fim das contas, tinha a Petrobras por trás."
Ademir Gonçalves, outro empresário local, se recorda: "Teve um ameaça de quebra-quebra na cidade. Eu tive de demitir funcionários e buscar dinheiro no mercado financeiro para cobrir um crédito de mais R$ 1 milhão".
Gonçalves vendia ferramentas, cabos, aço e outros materiais para a obra. A Justiça do Estado penhorou R$ 36 milhões do caixa da Petrobras para saldas as dívidas da obra em Três Lagoas.
No caso de Uberaba, os trabalhos pararam no ano passado e a Petrobras não informou a razão. A Toyo-Setal, segundo a prefeitura, informou que houve um "distrato" com a estatal. Desde que as obras foram interrompidas, integrantes dos governos de Minas e do Mato Grosso do Sul e as prefeituras de Três Lagoas e Uberaba tentam atuado para destravar os projetos.
O secretário Jaime Verruck, do Mato Grosso do Sul, disse que uma dificuldade seria o gás, insumo básico das fábricas de nitrogenados. "Quem vier a comprar a UFN3, precisará de um contrato de longo prazo de fornecimento de gás. Esse é o grande gargalo", afirmou.
O contrato entre Brasil e Bolívia - cujo gasoduto passa próximo às obras - se encerra em 2019, podendo ir até 2021. Mas e depois, a que preço o combustível chegará ao Brasil? "Alguns investidores que conversaram com o governo cogitaram a possibilidade de eles importarem diretamente da Bolívia. Outra opção seria importar gás liquefeito", disse Verruck.
Em Minas Gerais, o governo se comprometeu a levar gás construindo um gasoduto que sairia de Queluzito (MG) e iria até Uberaba. O projeto, porém, foi engavetado porque a Petrobras suspendeu a construção da planta.
A paralisação das duas obras tem ainda um custo difícil de ser mensurado. "Tudo está se depreciando lá dentro", diz José Maria Castilho Filho, sócio de uma empresa em Três Lagoas de locação de equipamentos e que até janeiro fez alguns serviços de manutenção na UFN3. "Tem estruturas metálicas, equipamentos grandes, tubulações, vários prédios, as unidades semiprontas. Tudo abandonado."
A Petrobras negou pedido do Valor para visitar os locais das obras de Três Lagoas e Uberaba.
Fonte: Valor Econômico/Marcos de Moura e Souza | De Três Lagoas (MS) e Belo Horizonte
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