segunda-feira, 10 de abril de 2017

"PETROBRAS SERÁ UMA EMPRESA SÉRIA"

O novo diretor-presidente da Petróleo Brasileiro SA (Petrobras), Pedro Parente, comprometeu-se a devolver "a grandeza" à abatida estatal ao se livrar de ativos - e de ideologias obsoletas - que não servem mais para a empresa mais importante do Brasil.
Em uma entrevista concedida ao "The Wall Street Journal" na sexta-feira, a primeira para a mídia estrangeira desde que assumiu o cargo, em maio, o ex-executivo do setor de agronegócio ressaltou que uma empresa mais enxuta e lucrativa, livre de intervenções políticas, é o caminho para restaurar a imagem da petrolífera.
"Ela será uma empresa séria [...] com a melhor administração que podemos ter neste país", disse Parente. "Esses não são sonhos pequenos que temos para a empresa. Eu não teria vindo para cá, senão com uma visão para trabalhar na recuperação da grandeza desta empresa."
Ele sinalizou que sua estratégia está praticamente em linha com a definida pelo seu predecessor, Aldemir Bendine: vender ativos secundários e cortar custos para reduzir a dívida gigantesca da empresa, de cerca de US$ 126 bilhões.
Parente confirmou que a empresa recebeu três ofertas de compra para uma fatia da BR Distribuidora, mas não deu mais detalhes sobre essas ofertas.
A empresa também está em negociação exclusiva com a gestora Brookfield Asset Management, do Canadá, para vender sua unidade de dutos de gás natural, a Nova Transportadora do Sudeste.
A Petrobras já afirmou anteriormente que pretende cortar sua dívida para 2,5 vezes o seu fluxo de caixa. Parente disse que preferiria reduzir a dívida para entre uma a duas vezes o fluxo de caixa, uma meta difícil.
"O maior desafio será reduzir a dívida. Hoje, do ponto de vista contábil, técnico, ela está virtualmente quebrada", diz Luis Octavio da Motta Veiga, ex-presidente da estatal, que elogia a experiência de Parente para o cargo. "Ele pode fazer isso, mas não será fácil."
Parente também indicou possíveis mudanças na empresa no curto prazo. A Petrobras já demitiu milhares de funcionários terceirizados e começou um programa de demissão voluntária para empregados diretos. O executivo não descarta mais demissões, mas não deu detalhes.
Ele também apoia um projeto de lei que abriria os cobiçados campos de petróleo do pré-sal para as empresas estrangeiras. Isso gerou críticas severas dos sindicatos de trabalhadores do setor petrolífero e outros oponentes preocupados com o que consideram uma venda do patrimônio brasileiro para estrangeiros.
A lei atual exige que a Petrobras seja a principal operadora e tenha uma participação de pelo menos 30% de qualquer projeto nos campos do pré-sal. Esta exigência forçou a Petrobras a fazer grandes empréstimos e desacelerou o desenvolvimento das reservas em águas profundas do Brasil.
"Há um tabu ou dogma em relação a administrar ativamente esse portfólio? Não", disse Parente. "Considerando nossas restrições financeiras, temos que ser muito seletivos na escolha dos campos em que vamos investir."
Em maio, a Petrobras divulgou um prejuízo de R$ 1,2 bilhão no primeiro trimestre, resultado de uma queda na produção de petróleo e de vendas mais fracas no mercado doméstico, em meio a uma das maiores recessões do país em décadas.
Em março, a petrolífera registrou seu pior resultado trimestral da história ao ser forçada a fazer uma baixa contábil de R$ 49,75 bilhões em ativos e investimentos do ano passado.
A cotação das ações da Petrobras se manteve praticamente inalterada desde a nomeação de Parente, em maio, uma vez que detalhes específicos dos seus planos para a empresa ainda não foram anunciados. Na sexta-feira, as ações preferenciais da Petrobras fecharam a R$ 8,95.
Parente, que já foi o mais alto executivo da unidade local do gigante americano do agronegócio Bunge, é hoje presidente do conselho da BM&FBovespa.
Embora não tenha feito carreira no setor de petróleo, ele não é um estranho na Petrobras, tendo ocupado um assento no conselho da estatal entre 1999 e 2003. Ele também tem familiaridade com os meandros do governo, ocupando os cargos de ministro da Casa Civil e do Planejamento durante o segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Essa experiência pode se mostrar valiosa num momento em que Parente terá que lidar com a séria e caótica situação política que hoje impera em Brasília. Enquanto o país aguarda o julgamento definitivo da presidente afastada Dilma Rousseff, três ministros já saíram do governo desde que Michel Temer assumiu a presidência.
"Não posso ficar preocupado com isso, está fora do meu controle", disse Parente. "A empresa não pode perder tempo. Minha perspectiva em termos de tempo é ficar aqui e fazer as coisas que têm que ser feitas. Não vou ficar esperando essa decisão" sobre o impeachment.
Parente diz que recebeu garantias de que não haverá interferência política na companhia. Nos últimos anos, o governo usou a Petrobras como arma no combate à inflação, impedindo a estatal de aumentar os preços dos combustíveis. A empresa gastou bilhões de dólares subsidiando gasolina e diesel importados para os motoristas brasileiros.
Parente também terá que negociar com sindicatos, que em algumas ocasiões impediram as tentativas da empresa de cortar custos. Depois que Parente deu seu apoio à revisão da lei do pré-sal, que tramita no Congresso e seria uma tentativa de trazer mais investimentos para a exploração, alguns sindicatos de peso começaram a protestar, inclusive com uma greve de 24 horas dos petroleiros.
"Estou pronto para o diálogo [com os sindicatos], mas tem que ser baseado em dados e fatos", disse Parente. "Infelizmente, não sei se em todos os setores, mas há visões dogmáticas por parte de algumas organizações sindicais com relação a este tema. Mas estou plenamente aberto ao diálogo."
Representantes dos sindicatos não responderam a pedidos de comentários ontem.
Há ainda os efeitos duradouros do enorme escândalo de corrupção na Petrobras, deflagrado pela operação Lava-Jato. O escândalo forçou a Petrobras a dar baixas contábeis de bilhões de dólares ligadas a prejuízos e à redução do valor de ativos, e vários processos foram abertos contra a empresa no Brasil e nos Estados Unidos.
Na entrevista, Parente deu indícios de qual será sua estratégia para lidar com as dezenas de ações abertas por investidores americanos, incluindo a Fundação Gates, de Bill e Melinda Gates e a Pimco, gigante dos fundos de renda fixa, que compraram ADRs da Petrobras na bolsa de Nova York.
"A história mostra que você faz acordos", disse Parente.
Fonte: Valor Economico/Will Connors e Luciana Magalhães | The Wall Street Journal, de São Paulo
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